Unifranz avança rumo a ensaios clínicos internacionais como peça-chave do NIHR Latam na Bolívia
Por Leny Chuquimia
A Universidade Franz Tamayo (Unifranz) avança para uma nova etapa no desenvolvimento da pesquisa científica em saúde, consolidando-se como peça-chave do NIHR Latam na Bolívia. O projeto, iniciado há dois anos, busca transformar o cuidado das doenças crônicas e da saúde mental na América Latina.
“Vivemos um dos marcos mais importantes: a transição dos estudos piloto para a fase de ensaios clínicos em larga escala, que serão realizados na Bolívia, Colômbia e Guatemala. Esses estudos permitirão validar as pesquisas com o máximo rigor científico”, explicou Lucía Alvarado, coordenadora nacional de pesquisa da Unifranz.
A iniciativa, impulsionada pela Queen Mary University of London e financiada pelo National Institute for Health and Care Research (NIHR), reúne universidades da Colômbia, Guatemala e Bolívia com um objetivo comum: gerar evidências científicas sólidas, formar pesquisadores e estabelecer um modelo sustentável de pesquisa com impacto na saúde.
Um trabalho com resultados
Na semana passada, os membros do Centro NIHR Latam reuniram-se em Lima, Peru, para realizar uma avaliação de suas atividades. Cinquenta pesquisadores do Reino Unido e da América Latina apresentaram resultados em pesquisa, formação e estudos piloto.
Conforme explicou Alvarado, um dos resultados mais relevantes é a passagem para a fase de ensaios clínicos. “Os ensaios clínicos representam um dos níveis mais elevados de evidência científica”, destaca.
Renata Peppi, gerente-geral do Centro NIHR Latam, assinalou que isso implica ingressar na etapa mais exigente do processo. “Estamos prestes a iniciar os estudos laboratoriais, um dos processos mais longos, com muitas pessoas envolvidas. E isso após apenas dois anos de trabalho”, afirma.
Contudo, esse não é o único avanço. Para Adriana Buitrago, coordenadora do Centro NIHR Latam na Colômbia, um dos resultados mais significativos é o trabalho de aproximação com as comunidades, investigando e respondendo a partir de suas necessidades.
“Tradicionalmente realizamos pesquisas com base em protocolos ou em nossa própria observação como pesquisadores. Isso muda quando escutamos as comunidades sobre suas necessidades, dúvidas ou problemas de saúde. Isso nos permite identificar mecanismos, processos e trajetórias específicas”, sustenta Buitrago.
Na Bolívia, um exemplo desse trabalho é o Catálogo Arte y Cultura San José de Chiquitos, iniciativa que evidencia como as expressões artísticas locais — dançar, pintar, bordar — podem atuar como medicina complementar para a saúde mental e física. Trata-se de uma demonstração de como integrar a identidade cultural nos processos de recuperação dos pacientes.
Paralelamente, no componente educacional, estudantes e docentes bolivianos cursam mestrados e doutorados em áreas estratégicas como epidemiologia clínica, bioestatística, bioética e ciência de dados, principalmente em colaboração com a Pontifícia Universidade Javeriana da Colômbia. O objetivo é criar uma “massa crítica” de pesquisadores que retornem ao país e assegurem a continuidade do centro.
Um projeto que constrói ciência a partir da América Latina
Embora o Centro NIHR Latam e a Unifranz contem com dois anos de trabalho conjunto, sua origem é anterior. Em 2022, a unidade de psiquiatria social e comunitária da Queen Mary University of London recebeu uma subvenção de 7 milhões de libras do NIHR, com o propósito de desenvolver um novo centro de pesquisa em saúde.
Foi a aliança entre a Pontifícia Universidade Javeriana da Colômbia, a Universidade Rafael Landívar da Guatemala e a Unifranz da Bolívia, com sede em Santa Cruz, que possibilitou a implementação do centro na América Latina.
O projeto não se limita ao financiamento de estudos pontuais. Seu propósito é mais ambicioso: criar um centro de pesquisa capaz de se sustentar ao longo do tempo, formar capital humano qualificado e fortalecer a relação entre ciência e comunidades.
Nesse contexto, a Unifranz desempenha um papel fundamental como um dos grupos satélites onde se desenvolvem atividades científicas. Representar a Bolívia nessa iniciativa internacional, assinala Alvarado, é motivo de orgulho, mas também de responsabilidade.
Impacto no sistema de saúde
Em Santa Cruz, a equipe trabalhou diretamente com o Serviço Departamental de Saúde, redes de atenção e centros médicos, estabelecendo um diálogo direto entre pesquisadores e autoridades sanitárias.
Essas alianças permitirão desenvolver intervenções de baixo custo, especialmente não farmacológicas, que poderão melhorar o atendimento a pacientes com doenças crônicas e transtornos de saúde mental.
Além disso, o projeto consolidou relações de confiança com comunidades indígenas e populações locais, que agora participam ativamente do desenho e da avaliação das intervenções.
Uma nova geração de pesquisadores
O projeto também está transformando o ecossistema acadêmico da Unifranz. O centro conta com espaço físico próprio dentro da universidade, a partir do qual são coordenadas pesquisas, capacitações e colaborações internacionais.
Por meio de programas de mentoria, capacitações semanais e editais de bolsas, a universidade está transferindo conhecimentos a estudantes, docentes e pesquisadores. “Estamos mostrando a nossos estudantes e professores como realizar pesquisa de qualidade. Isso não apenas fortalece a universidade, mas também o país”, explicam.
O processo formativo inclui ainda a adoção de padrões internacionais, como boas práticas clínicas e o desenvolvimento de um comitê de ética em pesquisa, elementos essenciais para elevar o nível científico nacional.
Com novos pesquisadores em formação, ensaios clínicos em andamento e alianças estratégicas consolidadas, a Bolívia começa a construir um futuro no qual a ciência se converte em uma ferramenta fundamental para melhorar a saúde e o bem-estar de sua população.