Valeria Rivero: como transformar resíduos em energia, resiliência e futuro sustentável
Por Leny Chuquimia
Compreender a energia como um direito básico, e não como um privilégio, pode redefinir a forma como as sociedades enfrentam a pobreza, a desigualdade e a crise climática. Quando o acesso ao essencial falha — luz, gás, água —, a qualidade de vida também se fragiliza. No entanto, mesmo em contextos adversos, há histórias que demonstram que a inovação pode emergir da escassez e transformar problemas ignorados em soluções transformadoras.
Essa foi a essência da palestra de Valeria Rivero durante o TEDx Unifranz 2025, evento organizado pela Universidade Franz Tamayo (Unifranz), sob licença do TED, que reuniu ideias e experiências em torno da tecnologia, da ciência, da resiliência humana e da arte como motores de mudança. No palco, Rivero compartilhou um testemunho profundamente pessoal que conectou memória, empreendedorismo e sustentabilidade, evidenciando que o desenvolvimento nem sempre nasce em grandes centros industriais, mas na observação crítica do entorno.
Rivero cresceu em Guayaramerín, Beni, uma cidade amazônica marcada pela convivência permanente com o rio Mamoré. Ali viveu, aos oito anos de idade, sua primeira grande inundação. “A água começou a subir, levou ruas, pátios, tudo. Foi ali que entendi o que significava viver com o mínimo”, recordou, explicando como esse episódio definiu sua relação com a perda e a adaptação. Com o tempo, compreendeu que, por trás daquela experiência infantil, havia medo, dor e uma fragilidade estrutural que afeta milhares de famílias no país.
Essa vivência despertou uma fascinação precoce pela energia. “Não sabemos o que temos até perdermos. Acender uma lâmpada, cozinhar com gás, ter um banheiro são aspectos fundamentais para a qualidade de vida”, afirmou, destacando como o cotidiano se torna vital quando desaparece. Esse interesse a levou a sonhar em cursar engenharia eletromecânica, um caminho que implicou migração, sacrifícios familiares e o enfrentamento do fracasso acadêmico.
Um dos momentos mais honestos de seu relato foi quando falou sobre ter sido reprovada no exame de ingresso à universidade. “O fracasso não nos define, mas sim o que fazemos logo depois dele”, afirmou, ressaltando o apoio de sua família e o esforço que lhe permitiram tentar novamente. Mais adiante, enfrentou um desafio ainda maior: a desigualdade educacional entre o campo e a cidade, uma realidade que exigiu perseverança e consciência crítica.
Longe de se resignar, Rivero decidiu olhar para seu entorno com outros olhos. Junto a seus sócios, Jorge e Daniel, identificou não apenas resíduos físicos, mas também oportunidades perdidas. “Vivemos rodeados de lixo, mas também de talento desperdiçado e de problemas ignorados”, explicou, antes de lançar a pergunta que marcaria seu empreendimento: “O que aconteceria se transformássemos os resíduos orgânicos em algo muito mais valioso?”.
Assim nasceu a Uneco Energy, um projeto voltado ao desenho e à construção de biodigestores capazes de converter resíduos orgânicos em biogás e fertilizante natural. Em um contexto nacional marcado pelo déficit energético, pela possível eliminação de subsídios aos combustíveis fósseis e por milhões de cabeças de gado que geram metano sem aproveitamento, a proposta adquire relevância estratégica.
“Um biodigestor não gera apenas gás; gera independência, resiliência e comunidade”, afirmou Rivero, ressaltando seu impacto social.
Sua história também desmistificou a ideia romantizada do empreendedorismo. Abrir mão de um emprego estável, sustentar uma empresa e assumir responsabilidades teve um custo pessoal. “A verdadeira batalha que todos nós enfrentamos é contra nós mesmos”, confessou ao relatar o momento em que o esgotamento a obrigou a parar e repensar seu caminho. Nesse processo, compreendeu que o valor não está apenas na meta, mas no percurso.
A palestra de Rivero dialogou com outras vozes do TEDx Unifranz 2025, como Khalil García-Tornel e Sinchy Díaz, que defenderam a ciência aplicada ao cotidiano; Luis Eduardo Hinojosa, que emocionou ao compartilhar sua história de reinvenção após tornar-se tetraplégico; Rigo Bellot-Machi, que convidou a reescrever a narrativa pessoal a partir da neurociência e do cinema; e Nicole Guerrero, que falou sobre o poder da solidariedade. Em conjunto, essas histórias convergiram em uma mesma mensagem: a transformação começa na mente e se fortalece na comunidade.
Ao encerrar sua intervenção, Rivero lançou um convite direto ao público: “O que é aquilo que te incomoda na sua vida ou na sua comunidade? Talvez ali exista algo que só você pode transformar”, concluiu, lembrando que até mesmo aquilo que parece inútil pode se converter em energia para construir um futuro mais justo e sustentável.