Sharon Pinto, a estudante da Unifranz que cria códigos para salvar vidas nas estradas
Por Leny Chuquimia
A cada ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1,3 milhão de pessoas morrem em acidentes de trânsito no mundo. Na Bolívia, 30% desses acidentes estão relacionados ao consumo de álcool, e outro percentual significativo está associado à fadiga do condutor.
Mas há quem não se conforme em apenas ler estatísticas, e decida mudá-las. Sharon Pinto Zorrilla, estudante boliviana graduada com excelência pela Universidade Franz Tamayo (Unifranz), é uma delas. Por isso, criou o AlcoCheck.
O AlcoCheck é um sistema de IoT (Internet das Coisas) que integra sensores de álcool calibrados, visão computacional para detecção de fadiga física por meio da análise facial, GPS e comunicação em nuvem para prevenir acidentes de trânsito. Trata-se de um protótipo funcional validado, capaz de gerar alertas preventivos antes que uma tragédia ocorra.
O software identifica pontos-chave do rosto (olhos, boca e posição da cabeça). Se os algoritmos detectam que o piscar está mais lento do que o normal, que os olhos permanecem fechados por mais de alguns segundos (microssono) ou que a cabeça cai por cansaço, o sistema interpreta um evento de fadiga extrema. Em seguida, envia alertas em tempo real para a nuvem, permitindo uma intervenção preventiva.
“Eu gostaria de eliminar esse medo e poder dizer: sim, meu familiar vai chegar em casa com segurança e vai ficar bem”, explica Sharon. É aqui que a Engenharia de Sistemas deixa de ser uma carreira de escritório para se tornar uma missão de resgate. O AlcoCheck é a prova de que uma educação que transforma vidas é aquela que ensina os estudantes a olhar para fora da tela e para a realidade ao seu redor.
Sharon nem sempre teve certeza de que os algoritmos estariam em suas mãos. Houve um tempo em que o estetoscópio e a medicina pareciam o caminho lógico para cumprir o mandato familiar de “ajudar os outros”. No entanto, a vida tinha outros planos: fez dela engenheira de sistemas.
Um propósito
A urgência do AlcoCheck se traduz em números alarmantes: apenas em 2025, a Bolívia registrou mais de 3.800 acidentes provocados pelo álcool e cerca de 1.200 tragédias decorrentes do cansaço físico nas estradas, segundo dados do Organismo Operativo de Trânsito.
Sharon observa que, ao saber pelas notícias que alguém perdeu a vida por causa do álcool ou da fadiga, sente-se uma tristeza profunda. “A gente se pergunta: como eu me sentiria se isso acontecesse com um familiar? Eu gostaria de evitar essa dor”, afirma.
Foi desse sentimento que nasceu o AlcoCheck — não de uma exigência acadêmica, mas da empatia convertida em tecnologia, e da tecnologia colocada a serviço das pessoas.
Sua graduação por excelência não foi apenas um número em um documento, mas um tributo. “O que mais me realiza é saber que estou retribuindo todo o esforço que meus pais fizeram por mim”, confessa Sharon, olhando para um horizonte onde, em algum lugar, seu pai certamente sorri.
Essa jovem cochabambina entende que a excelência acadêmica não é uma medalha de vaidade, mas uma ferramenta de gratidão. É a expressão de uma educação que, quando é de qualidade, não apenas aprimora o intelecto, mas também amplia o coração.
Ela dedica essa conquista ao pai falecido, David Pinto Sánchez, sua maior inspiração: “Minha meta sempre foi superar meu pai. E sei que, de onde ele estiver, deve estar muito orgulhoso”.
Educar também é acreditar no outro
A engenheira Fabiola Cadima, diretora do curso de Engenharia de Sistemas, conhece bem Sharon: “Ela é inquieta, sempre surpreende. Tem um raciocínio lógico-abstrato que a faz desenvolver sistemas de forma diferente e aprender mais rápido. Os estudantes brilham sozinhos, mas é preciso convencê-los de que são capazes”.
Para ela, Sharon representa muitos jovens que não se veem como excepcionais, embora o sejam. “Eles não conseguem porque nós fazemos por eles; conseguem porque alguém lhes deu uma oportunidade”, afirma.
Essa visão explica por que projetos como o AlcoCheck não são casuais, mas o resultado de uma universidade que acredita no aprender fazendo e na formação integral. Cadima acrescenta: “Celebrar as conquistas deles é importante, porque muitas vezes os estudantes veem esse espaço como a sua casa”.
Para além dos algoritmos
Sharon cozinha fettuccine Alfredo que aprendeu no YouTube durante a pandemia. Lê porque o pai lhe disse que isso a tornaria mais culta. Joga vôlei sempre que pode. E sua frase de vida é simples, porém poderosa: “Viva e deixe viver. Foque no que você quer fazer, não no que os outros estão fazendo”.
Sharon Pinto Zorrilla não é apenas uma estudante brilhante. É a prova de que a verdadeira excelência acadêmica pode ser medida em vidas salvas.